1.11.09

O "apesar de"

Constatações (nada) humanas!

1.
Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu MAIOR DESEJO para o ano [...]. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?
Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!
[...]
Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. (Rachel de Queiroz)

2.
É preciso AMAR, sabe?
No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo asceticismo da ioga... tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira. (Antônio Maria)

3.
E este é o nosso GRANDE REMORSO: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais. (Lourenço Diaféria)

4.
A LUTA apenas se inicia. (Ivan Lessa)

5.
Se você não tem NAMORADO [A] é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.
“Enlou-cresça”. (Artur da Távola)

6.
[...] Sempre admirei o Antônio Callado, que definia os personagens do nosso tempo em duas categorias: os que tinham boa presença e os que tinham péssima ausência. Boa presença era quando todos falavam bem de um sujeito presente. Péssima ausência era quando, ausente, o sujeito monopolizava a conversa, cada qual juntando um graveto para queimar na alegre pira da MALEDICÊNCIA.
E, com aquele jeito de único inglês da vida real, Callado completava a sua frase: “O mais gostoso de tudo isso é que o bom presente e o mau ausente são sempre a mesma pessoa”. (Carlos Heitor Cony)

30.8.09

Apelo a meus dessemelhantes
em favor da paz
(Carlos Drummond de Andrade)

Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro
à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem popupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo de ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides,
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Aassurbanipal,
como é que vou -
mancebos,
senhoritas
- chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2000 que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o A.C., believe or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranqüilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São Nunca.
Saiu para não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia e para aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio
de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho
a paz
da paz.

Referência:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 61. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 368-70.

2.6.09

Da lógica do amor

1.6.09

Você é mesmo um cidadão? Faça o teste!









27.5.09

O segredo da longevidade...


22.5.09

Para uma boa leitura (erótica)...

Se há realmente deuses; a estes, devo meus agradecimentos eternos por esbarrar, de maneira nada esporádica, em livros que chamo de “achados”. Acontece assim: a gente aprende a ler e a escrever, progride nas séries disto que denominam “educação” no âmbito escolar (bem, imagino que o prefixo “des” caberia na primeira palavra da referida expressão, mas isto é assunto para outro diálogo), recebe um canudo – no geral, a “prova” de que tudo é sabido; e, num dia qualquer (daqueles que uma ida ao shopping ocorre pro assassinato do tempo), entrando na livraria, a nossa jaqueta engancha na prateleira dos livros classificados como de bolso. Estes, quase nunca comprados, por não obterem um lugar de destaque no “comércio” – questões de lucratividade, talvez o ganho com os mesmos seja menor... Daí por diante, a “dança-do-acasalamento-literato-obra-leitor”; no meu caso, sobre o mais recente, “paes-Poesia-Erótica-Em-Tradução-diego”. Noutras palavras, a escola nos mostra a evolução do lirismo amoroso, na literatura, diante da sucessão dos períodos; enquanto a vida, as modificações constantes da poesia erótica ao longo dos tempos, dos gregos aos surrealistas, sob a perspectiva “estrangeira” que se faz nacional.

De José Paulo Paes (cujas habilidades poderiam ser aqui citadas), Poesia Erótica Em Tradução se trata de um livro que - por toda sua abordagem – indico veementemente para leitura e releitura. Também poderia discorrer sobre os ensaios que, presentes nesta obra, distinguem erotismo de pornografia. No entanto, prefiro deixar outro tipo de argumento...

20.5.09

Ecologicamente correto

Da religiosidade às religiões

Os Cegos

Viviam, num país do Oriente, cinco cegos que mendigavam juntos à beira de um caminho. Eram amigos em virtude de seu infortúnio comum. Todos tinham um grande desejo. Já haviam ouvido falar de um animal extraordinário, enorme, chamado elefante. Tão maravilhoso era o dito animal que muitos afirmavam que ele era divino. Mas eles, pobres cegos, nunca haviam estado com um elefante. Ah! Como gostariam de conhecer um elefante. Aconteceu, porque Alá ouviu suas preces, que um domador de elefantes foi por aquele caminho conduzindo seu animal. Foi uma festa! A criançada gritando, homens e mulheres falando. Ouvindo tal rebuliço, os cegos perguntaram: “O que está acontecendo?”. “Um elefante, um elefante”, responderam. Eles se encheram de alegria e pediram ao domador que os deixassem tocar o elefante, já que ver não podiam. O domador parou o animal e os cegos se aproximaram. Um deles foi pela traseira, agarrou o rabo do elefante e ficou encantado. O segundo foi pelo lado, abraçou uma perna e ficou encantado. O terceiro apalpou o lado do elefante e ficou encantado. O quarto passou as mãos nas orelhas do elefante e ficou encantado. E o último segurou a tromba e ficou encantado. Ido o elefante, os cegos começaram a conversar. “Quem diria que o elefante é como uma corda!”, disse o primeiro. “Corda coisa nenhuma”, disse o segundo. “É como uma palmeira”. “Vocês estão loucos”, disse o terceiro. “O elefante é como um muro muito alto”. “Vocês não são só cegos dos olhos”, disse o quarto. “São também cegos da cabeça. Pois é claro que o elefante é como uma ventarola”. “Doidos, doidos”, disse o quinto. “O elefante é como uma cobra enorme...” Por mais que conversassem, eles não conseguiram chegar a um acordo. Começaram a brigar. Separaram-se. E cada um deles formou uma seita religiosa diferente: a seita do deus corda, a seita do deus palmeira, a seita do deus parede, a seita do deus ventarola, a seita do deus cobra... Assim são as religiões.
ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Planeta do Brasil, 2008.
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E, contrariando o princípio de que toda história fica a cargo duma moral, deixo aqui a moral da minha história: “o elefante, não sendo a fotografia, segue a sua viagem; enquanto o fotógrafo, profissional por essência, alimenta-nos a alma – com as suas reproduções, mas ainda assim nos alimenta”.